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April 22, 2026
Pré-natal: uma em cada cinco gestantes no Brasil não recebe o cuidado mínimo recomendado

Mulheres indígenas, adolescentes, com baixa escolaridade e residentes da região Norte estão entre os grupos mais afetados pela interrupção do acompanhamento pré-natal no Brasil. Embora quase todas as gestantes realizem ao menos uma consulta, uma em cada cinco não completa o mínimo de sete consultas recomendado pelo Ministério da Saúde desde 2024 para o acompanhamento seguro da gestação.
Os dados são de um estudo nacional conduzido por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel), em parceria com a Umane, organização voltada ao fortalecimento da saúde pública. A pesquisa analisou mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) em 2023. Os resultados estão disponíveis no Observatório de Saúde Pública e também foram publicados no periódico International Journal for Equity in Health.
Enquanto 99,4% das gestantes realizam a primeira consulta pré-natal, apenas 78,1% chegam à sétima consulta. Segundo os pesquisadores, o principal desafio do sistema de saúde não está no acesso inicial, mas na continuidade do cuidado, especialmente entre grupos em situação de maior vulnerabilidade social.
“Praticamente universalizamos o acesso ao início do pré-natal no Brasil, mas ainda não conseguimos garantir que esse cuidado se mantenha até o final da gestação, deixando para trás populações que já se encontram em situação de vulnerabilidade”, afirma a pesquisadora do ICEH/UFPel, Luiza Eunice Sá da Silva.
Para Evelyn Santos, gerente de Investimento Social e Impacto da Umane, o estudo contribui para qualificar o debate público sobre desigualdades no acesso ao pré-natal. Segundo ela, ao evidenciar a interrupção do cuidado e as disparidades entre diferentes grupos de mulheres, a pesquisa reforça a necessidade de respostas coordenadas para garantir atenção integral à saúde materna.
Escolaridade e raça: principais marcadores de desigualdade
A escolaridade é um dos fatores que mais influenciam a conclusão das sete consultas recomendadas. Entre mulheres com 12 anos ou mais de estudo, 86,5% completam o acompanhamento mínimo. Entre mulheres sem nenhuma escolaridade formal, esse percentual cai para 44,2%.
As desigualdades raciais também são expressivas. Enquanto 84,3% das mulheres brancas completam sete consultas, apenas 51,5% das mulheres indígenas atingem esse número. Entre mulheres pretas e pardas, os percentuais são de 75,7% e 75,3%, respectivamente.
O dado mais preocupante está na continuidade do cuidado: entre a primeira e a sétima consulta, a cobertura entre mulheres indígenas cai 46,2 pontos percentuais, uma redução três vezes maior do que a observada entre mulheres brancas.
Quando raça e escolaridade se cruzam, as desigualdades se tornam ainda mais profundas: apenas 19% das mulheres indígenas sem escolaridade completam sete consultas, em comparação com 88,7% das mulheres brancas com 12 anos ou mais de estudo.
Desigualdades regionais e por idade
As disparidades também aparecem entre regiões do país. A região Norte apresenta a menor cobertura: apenas 63,3% das gestantes completam sete consultas. Os melhores resultados estão no Sul (85%), seguido pelo Sudeste (81,5%), Centro-Oeste (77%) e Nordeste (76,1%).
Entre adolescentes com menos de 20 anos, apenas 67,7% completam o acompanhamento recomendado, percentual inferior aos 82,6% observados entre mulheres com mais de 35 anos.
O epidemiologista e coautor do estudo Cesar Victora destaca que os resultados reforçam a chamada Hipótese da Equidade Inversa, segundo a qual avanços em saúde tendem a beneficiar primeiro os grupos mais privilegiados.
Segundo os pesquisadores, os achados ganham relevância em um contexto em que o Brasil busca reduzir mortes maternas evitáveis. Como o pré-natal é a principal estratégia para identificar e prevenir complicações durante a gestação, interrupções no acompanhamento aumentam os riscos de parto prematuro, baixo peso ao nascer e outros desfechos adversos.
Diante desse cenário, os autores defendem que a equidade deve ocupar lugar central nas políticas públicas de saúde, com estratégias específicas para ampliar o acompanhamento entre mulheres com baixa escolaridade, populações indígenas, adolescentes e regiões historicamente mais vulneráveis.