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June 30, 2026
Estudo do ICEH apresenta novo indicador para monitoramento global da Saúde Materna e Neonatal

Um novo estudo conduzido pelo Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel) apresenta o MNHci (Maternal and Newborn Health Composite Indicator), um indicador composto desenhado para medir a co-cobertura de intervenções essenciais de saúde materna e neonatal em países de baixa e média renda. O trabalho, publicado na revista científica Public Health, baseia-se em discussões com especialistas vinculados à iniciativa internacional Countdown to 2030.
O atendimento pré-natal adequado, a assistência qualificada ao parto e as consultas pós-natais são intervenções cruciais para reduzir a morbidade e a mortalidade materno-neonatal. Embora estejam intimamente relacionadas ao longo do continuum de cuidado, essas etapas são tradicionalmente monitoradas de forma isolada pela saúde pública.
“Identificamos a necessidade de desenvolver um indicador que combinasse esses três momentos-chave para avaliar de forma mais robusta e integrada a saúde da mulher e do recém-nascido”, explica Luisa Arroyave, pesquisadora do ICEH e autora principal do estudo.
Como funciona o MNHci
O novo inovador funciona como uma contagem simples e direta de três intervenções essenciais alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU:
- Pré-natal: Realização de pelo menos quatro consultas pré-natais (ANC4+);
- Parto: Realização de parto institucional (em ambiente hospitalar ou clínica de saúde autorizada);
- Pós-natal: Atendimento pós-natal para a mulher ou para o bebê dentro de dois dias após o parto.
Cada dupla mãe-bebê recebe uma pontuação que varia de zero (nenhuma intervenção recebida) a três (todas as intervenções recebidas). Utilizando dados de pesquisas nacionais representativas de 97 países, a equipe de cientistas, que inclui os pesquisadores Luisa Arroyave, Paulo Neves, Fernando C. Wehrmeister, Ties Boerma e Aluisio J. D. Barros, analisou a distribuição do indicador, seu impacto na mortalidade infantil e as desigualdades socioeconômicas associadas.
Impacto direto na redução da mortalidade
A validação do indicador trouxe resultados contundentes: o MNHci demonstrou uma forte correlação inversa com a mortalidade neonatal e pós-neonatal. Em termos práticos, países com maiores pontuações no MNHci apresentaram taxas de mortalidade significativamente menores.
De forma ainda mais marcante, os modelos estatísticos ajustados revelaram que receber as três intervenções essenciais está associado a uma redução de 43% no risco de mortalidade neonatal quando comparado a não receber nenhuma, demonstrando a importância da continuidade e da integralidade do cuidado.
O desafio da desigualdade social
A partir do uso do indicador, o estudo revela profundas disparidades socioeconômicas no acesso à saúde. A cobertura completa do MNHci foi sistematicamente maior entre duplas pertencentes a famílias mais ricas (83% no decil mais rico contra apenas 44% no mais pobre) e residentes em áreas urbanas.
“Vivemos em um mundo profundamente desigual, onde o acesso e a qualidade dos serviços variam significativamente devido a barreiras, sobretudo socioeconômicas e demográficas. Criamos o MNHci para não apenas avaliar a cobertura, mas também medir desigualdades dentro e entre os países, fornecendo evidências que possam embasar práticas, programas e políticas voltadas para a redução dessas disparidades”, afirma Arroyave.
Como uma medida simples, confiável e diretamente aplicável a políticas públicas, o MNHci oferece um instrumento para monitorar avanços e identificar lacunas na saúde materno-infantil. Sua implementação pode auxiliar os governos de países de baixa e média renda no cumprimento das metas globais dos ODS e na promoção de sistemas de saúde mais equitativos.
O indicador já vem sendo adotado na comunidade científica global, tendo sido integrado a relatórios estratégicos do Countdown, apresentado na conferência AlignMNH (2023), no World Congress of Epidemiology (2024), na International Maternal Newborn Health Conference (2026), além de ter recebido destaque no Countdown Lancet Global Report.
Artigo completo na Public Health
Destaque no Lancet Global Report